Minas Gerais: de Jaboticatubas até Santana do Riacho (61 km)

Um dia de estradas muito belas e muito difíceis.

O percurso de sessenta quilômetros foi dividido em trinta km de estradas de terra e trinta km de asfalto. Ambos os trechos apresentaram paisagens muito bonitas.

Na noite anterior, em Jaboticatubas, a temperatura esfriou, mas nada de mais, apenas agradável. Fiz um pequeno passeio pelo centro da cidade, a praça, ver as pessoas. Amanheceu friozinho agradável também. O café da manhã da Pousada Tonelli é deveras fraquinho: café, suco de laranja, banana, laranja, pão, queijo e bolo.

Depois do café, preparei a bagagem e saí, passei pelo centro da cidade e, logo no início da estradinha para Cardeal Mota, as imensas subidas recomeçaram.

Os primeiros oito quilômetros dessa estrada de terra são desumanos. Gastei uma hora para percorrê-los. Após esses oito km, chega-se à localidade de Capão dos Monjolos. Daí em diante, as subidas são menos rigorosas e a estrada se torna muito bonita. Há muita vegetação, árvores e bambuzais, e muitos sítios bem cuidados. Há mercearias, padaria e bares. Após essa localidade, a estrada continua bonita e há muitas pontes e riachos, inclusive os ciclistas da região fazem ali uma trilha chamada Trilha dos Sete Rios. Contudo, ainda com muitas subidas e descidas. As descidas, íngremes, sempre levam a uma ponte e um riacho e, após a ponte, novas subidas. Nesse trecho, passei por uma construção que deve ser um tipo de capela sem paredes, um local de culto dos habitantes da região. Era um espaço aberto, coberto por um grande telhado, enfeitado, e com dois altares de pedra.

Quando se chega mais perto da estrada de São José da Serra, aparecem muitas pousadas rurais, uma igrejinha e uns dois ou três bares. As subidas e descidas não são fáceis, embora melhores que no primeiro trecho. De todo modo, não se pode descer atabacado, pois há muitas pedras, buracos e costelas de vaca, o que pode quebrar algo na bicicleta com bagagem.

Além da beleza da estradinha, a paisagem que nos acompanha em quase todo o trecho é a da Serra do Cipó, imensa, imponente, misteriosa, uma parede de pedra que se ergue no horizonte. Parei inúmeras vezes para contemplar aquele prodígio.

A estrada de terra, enfim, desemboca na rodovia MG-10 e, com mais alguns km de asfalto, chega-se à cidade de Cardeal Mota. Cabe observar que Cardeal Mota, por decisão de seus habitantes, mudou de nome, alguns anos atrás. Passou a se chamar Serra do Cipó, em parte para usufruir da fama da própria Serra do Cipó. A ex-Cardeal Mota fica aos pés da Serra e é lá a entrada do Parque Nacional da Serra do Cipó. Entrada oficial, mas você pode adentrar a Serra por vários caminhos, na verdade.

Bom, o fato é que Cardeal Mota é uma cidade turística, com muitas pousadas, bares, restaurantes, oferta de passeios, inclusive aluguel de bicicletas.

Entrei na cidade apenas para almoçar, pois meu destino era Santana do Riacho. Encontrei um self-service, almocei muito bem por um preço bom, com cerveja Antarctica e doce de leite de sobremesa. Descansei um tiquim, como dizem os mineiros, e às doze e meia parti. Saí de Cardeal Mota, voltei um pouco e peguei a rodovia asfaltada para Santana.

Esta rodovia também tem longas e fortes subidas e descidas, mas por ser asfaltada é mais fácil que o trecho anterior. O melhor desse trecho é que a rodovia segue para o Norte acompanhando a Serra do Cipó. Portanto, durante todo o trajeto, pode-se admirar a Serra em todo o seu comprimento.

Depois desse tobogã, cheguei à Santana do Riacho pouco depois das três da tarde. Sol forte e baixa umidade durante todo o dia. Encontrei a Pousada Três Corações, de frente para a Serra. Depois de lavar a bicicleta, banho, lavar roupas, fui ao centro da cidade e tomei uma cerveja Brahma. À noite, jantei na pousada. Amanhã será o dia de cruzar a Serra.

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Minas Gerais: De Confins a Jaboticatubas (51 km)

Um dia longuíssimo. Praticamente não dormi, pois o voo de Recife para Confins partia às quatro da madrugada. O táxi chegou à uma e trinta, cheguei ao aeroporto às duas, fiz o check-in. entreguei a bicicleta que estava na caixa. Bicicleta com a caixa pesou dezessete quilos, e o alforje que despachei pesou seis, portanto bati certinho os vinte e três quilos. O outro alforje veio como bagagem de mão.

O avião da Azul saiu na hora, mas sobre a Bahia alguém passou mal, não sei quem foi, algum passageiro lá de trás, eu estava na frente. Saquei logo que o piloto iria desviar para Salvador. O avião pousou em Salvador. Não sei se o passageiro foi apenas atendido por um médico ou se foi retirado, eu cochilava.

Pousamos em Confins às sete e vinte, cinquenta minutos depois do horário original. A caixa da bicicleta e o alforje apareceram logo na esteira. Coloquei-os no carrinho e saí para procurar um lugar adequado para fazer a montagem. Dei uma circulada no aeroporto e encontrei um lugar pouco movimentado perto de umas latas de lixo reciclável. Desfiz as embalagens de plástico e papelão e comecei a montagem: pneu dianteiro, guidão, pedais, selim, encher os pneus. Deu tudo certo, nenhuma parte veio amassada ou torta.

Bicicleta pronta, saí do aeroporto e cruzei a grande rodovia em frente para pegar o acostamento do outro lado, pois eu seguiria no sentido oposto ao de Belo Horizonte. Segui pela rodovia MG-800 e logo após a entrada para a cidade de Confins, peguei à direita, é uma rodovia menor, pista simples, com muitas subidas.

Vou me repetir muitas e infinitas vezes, pois em Minas Gerais só existem as subidas.

Peguei a estrada de terra que corta o Parque Estadual do Sumidouro e a Área de Preservação Ambiental de Lagoa Santa. É uma região bonita, mas a estrada é difícil, muitas subidas e descidas, piso ruim, muita pedra, mas vale a pena passar por ela.

Além disso, meu objetivo é evitar ao máximo as rodovias asfaltadas e o barulhos dos veículos.

Nessa estrada do Sumidouro, passaram por mim apenas uns três caminhões, passaram devagar para levantar menos poeira e nos cumprimentamos.

A estrada de terra acaba quando chega à Lapinha, um distrito de Lagoa Santa. Essa também é uma região muito bonita, e possui pousadas e restaurantes. Entretanto, não serviam para mim, pois era cedo e essa região fica a apenas dezoito km do aeroporto. Se alguém pegar um voo que chegue mais tarde à Confins, pode se hospedar nessa região no primeiro dia de cicloviagem. Parei em um bar na Lapinha para comprar uma garrafa de 1,5 litro de água. Levo a garrafa sob a tampa do alforje e ela permanece gelada e fresca por muito tempo.

Cheguei à rodovia MG-10, incômoda, estreita, carros velozes, mas era só um trechinho, pois logo à frente eu sairia dela. Nesse trecho da rodovia há alguns restaurantes, mas estava muito cedo para almoçar, os restaurantes ainda não estavam preparados. Talvez tivesse sido melhor esperar um pouco e almoçar por ali, pois o trecho seguinte é cruel.

Saí da MG-10 e peguei a estrada de terra para Jaboticatubas. Bom, foi subida o tempo todo. Claro que, olhando o perfil, vê-se que há subidas e descidas, mas as subidas eram enormes, longas, íngremes, demoradas. Chega ficava triste quando vinha uma descida, pois sabia que depois da descida voltaria a subir tudo de novo.

Contudo, cabe observar que nenhuma das subidas ali é impossível de fazer. Todas são subíveis e todas foram subidas, lentamente, com calma. Mas não é fácil. Como diz Bagaceira, fiquei demente e estava até achando engraçado a sucessão de subidas. De todo modo, a cada topo de monte era legal ver ao longe a sombra imensa da Serra do Cipó, um dos meus objetivos, pois irei cruzá-la em breve.

Antes de começar esse trecho, eu pensava parar em Jaboticatubas somente para almoçar e continuar até a Serra do Cipó. Entretanto, fazia esse trecho lentamente. Não dava para ir rápido nem nas descidas, pois a estrada é ruim e poderia quebrar algum raio, o bagageiro ou mesmo o aro se descesse muito rápido com a bagagem. Fiquei um pouco preocupado sobre se iria encontrar almoço em Jaboticatubas, o tempo passando.

Decidi ficar nessa cidade, queria almoçar e descansar. Enfim, cheguei ao centro da cidade por volta das treze e quarenta, uma pracinha, alguns bares e restaurantes. Encontrei a Pousada Josephina Tonelli, que fica em frente à bela Igreja do Rosário. Perguntei ao proprietário em qual restaurante poderia encontrar almoço, ele recomendou o Flor da Laranja.

Deixei os alforjes no quarto e fui para o Flor da Laranja, que era um restaurante self-service de preço único, quinze reais por pessoa. Pedi uma Brahma que veio geladinha, e repeti diversas vezes o macarrão e o feijão. Que fome! Que cerveja boa! Ainda comi frutas, fazia parte do preço único, e picolé, por fora.

Com as atendentes, peguei informação sobre onde comer à noite e sobre as duas igrejas da cidade. Depois do almoço, embora pesado, subi a grande ladeira até a Igreja da Matriz, na verdade Igreja da Imaculada Conceição. Estava aberta, entrei, simplesinha e bonitinha, teto de madeira. Depois passei na menor, a Igreja do Rosário, de 1889, estava fechada.

Lavei bicicleta, a poeira vermelha inundou todas as peças, lavei a roupa, banho. Importante destacar que, provavelmente, eu trouxe um corta-vento e um colete mais quente em vão. Aqui em Minas, o sol está de rachar. O vento é frio, mas nada que incomode. É bem friozinho de manhã, com sol forte e céu sem nuvens, e vai esquentando ao longo do dia.

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