23º dia: Itarema – Jijoca de Jericoacoara (CE) (72 km)

Após a parada estratégica em Itarema, fizemos pelo asfalto da rodovia CE-85 o trajeto de 72 km até Jijoca de Jericoacoara. Para quem não conhece a região, devo dizer que é quase impossível – ou extremamente difícil – chegar de bicicleta pela praia até a vila de Jericoacoara. Há inúmeros rios sem possibilidade de encontrar barco para travessia e o trecho final, entre Preá e Jeri, pela praia, não dá passagem por conta de muitas e enormes pedras. Além disso, indo por Jijoca também não é possível chegar de bicicleta até Jeri, só se for empurrando a bicicleta em 8 km de areia fofíssima, por dentro do Parque Nacional de Jericoacoara.

Portanto, desde muito antes, a gente já havia decidido seguir pelo asfalto até a sede do município, Jijoca de Jericoacoara, e procurar hospedagem junto à Lagoa de Jijoca, para depois visitar a vila de Jeri.

Bom saber que Jijoca é o município onde fica a vila ou distrito de Jericoacoara. O pessoal da região nos disse que a palavra Jijoca é a junção dos nomes do índio Ji e da índia Joca, casal que habitou essa região. Jericoacoara, dizem que significa jacaré coarando ao sol, pois a linha da costa vista do mar lembra um jacaré. Contudo, essa explicação parece ser meio romantizada ou inventada, pois é mais provável que, em tupi, Jijoca signifque “casa das rãs (jias)” e Jericoacoara signifique “buraco das tartarugas”.

Nesse dia, então, um domingo, deixamos Itarema e pedalamos pelo asfalto, passamos por Acaraú e Cruz e chegamos em Jijoca. O dia esteve nublado, sem chuva, o que foi melhor para nós, o calor não foi tanto no asfalto. Entramos no centro de Jijoca, a cidade estava parada, domingo, quase tudo fechado, mas encontramos um self-service, 14 reais por pessoa sem balança. Comemos muito e bem, com cervejas geladinhas. Durante o almoço, conversamos com um rapaz da cidade que nos deu algumas orientações sobre pousadas.

Pelos mapas, a gente pensava que a Lagoa de Jijoca, também conhecida como Lagoa do Paraíso, ficava bem pertinho do centro. Não é assim, a Lagoa fica distante 5 km do centro. Há pousadas no centro e há pousadas na beira da Lagoa. Com a orientação do rapaz, depois do farto almoço, fomos para a beira da Lagoa e vimos algumas pousadas. Entrei em uma menorzinha que me pareceu mais simpática e tranquila.

Logo de cara, conheci os donos, Núbia e Diego, e ele, muito atencioso já foi me oferecendo um desconto na diária. Chamei Baga, olhamos o quarto, gostamos muito do aspecto da pousada e do quarto. Essa Pousada Flambaião é menor que as outras e muito mais agradável.

Deixamos tudo no quarto e fomos para dentro da Lagoa. Posso dizer com toda a certeza que o melhor dessa região é a Lagoa de Jijoca, belíssimo lugar, águas transparentes, tranquilo, silencioso, melhor mesmo que a praia de Jeri.

Assim, após cerca de 1.300 km pedalados, nós encerramos nossa cicloviagem nesse lugar inesquecível que é a Lagoa de Jijoca. Entretanto, farei ainda algumas postagens descrevendo nossos passeios em Jeri e até a famosa Pedra Furada.

 

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22º dia: Icaraí de Amontada – Itarema (CE) (41 km)

Dia que teve trechos muito, muito difíceis.

Após o ótimo café da manhã de Dona Ivone, saímos da pousada pedalando pela praia de Icaraí de Amontada. A maré estava baixando e já permitia pedalar. Entretanto, alguns quilômetros à frente, um trecho de pedras que só permitia a passagem por cima, pela areia fofa. Depois desse trecho, pedal suave na areia dura, novamente.

Quando chegamos na localidade de Moitas, encontramos uma grande tartaruga morta na praia, e parecia ter sido recente a morte, pois a tartaruga ainda estava inteira e sem mau cheiro.

Após Moitas, entramos pela estradinha do mangue que leva até o barco que faz a travessia do Rio Aracati Assu. Pedi ao rapaz do barco que nos levasse até a praia, é mais longe, pois do outro lado do rio é uma imensa área de mangues. Ele se recusou, disse que o barco não tinha um motor forte. Não encontramos outro barco por ali. Não gostei de ter que atravessar para o mangue, mas foi o jeito.

Descemos no mangue e seguimos empurrando. Há uma trilha marcada, tanto no gps, quanto por dentro do mangue, pois foram colocadas fitas vermelhas nas árvores para que a gente saiba o caminho. É um mangue imenso com poucas partes secas. Nós empurramos dentro da região alagada, cheia de chiés e siris na água clara.

Apesar da trilha ser marcada, a gente tinha que desviar em alguns trechos para procurar partes mais rasas. Em alguns trechos, a passagem de veículos 4×4 havia tornado o lugar um pouco mais fundo e mole, o pé afundava na lama. Seguimos com dificuldade por 2 km de alagados, até que a trilha subia para uma parte seca.

Então, piorou. A trilha seca era de areia fofíssima, areia de duna, no meio da vegetação. Sofremos empurrando as bicicletas por mais 2 km. Enfim, encontramos três pescadores que vinham pela trilha e que nos disseram que a areia fofa acabava logo na frente.

Era um povoado bem pequeno e a trilha se tornou estrada de barro duro. No fim do povoado, na bifurcação da estrada, um bar bem humilde, crianças na frente, paramos e tomamos duas cervejas em lata geladinhas, uma delícia naquela situação. Conversamos com algumas pessoas no bar sobre a passagem do mangue e a nossa viagem.

Na bifurcação havia decisão a tomar: à esquerda, estrada de barro até a balsa da travessia do Rio Aratimirim e, à direita, a estrada ia até a praia, e pela praia até a vila de Torrões e procurar um barco para a travessia. Escolhemos a praia.

Seguimos pelo barro e vimos o mar, mas ainda estava distante, havia que atravessar mais um braço de mangue, amplo e aberto, sem problemas. Enfim, chegamos à areia dura da praia e pedalamos direto até o Rio Aratimirim. Na frente da vila de Torrões, havia alguns barcos, mas não havia ninguém. Uma moça gritou de lá do outro lado do rio que, se quisesse atravessar, eu deveria ir chamar um pescador nas casas por trás de mim. Fui até lá, bati palmas e chamei, veio Seu Antonio que, gentilmente, nos levou para a vila de Torrões.

Saímos de Torrões e pedalamos por asfalto até Almofala. A cidade tem uma bela igrejinha da Conceição. Paramos para comprar água em uma mercearia e perguntamos onde a gente poderia almoçar. O rapaz disse que lá mesmo, pois na parte de trás da mercearia, que dava em outra rua, eles tinham um restaurante. Os pratos eram PF, a comida era caseira, bem feita e temperada, e tudo estava perfeito, inclusive as cervejas geladinhas. Teve até sobremesa de doce de coco, delícia, e tudo bem baratinho.

Depois do almoço, um sol para cada um, calor de rachar, pedalamos ronceiramente até Itarema. Se o dia não tivesse sido tão pesado, a gente pensava passar de Itarema, mas o melhor foi ficar logo ali. Procuramos uma pousadinha, tinha até piscina, lavamos as bicicletas, limpamos os alforjes, tomamos banho de piscina.

O dia foi bem difícil, mas muito divertido e diferente. Eu até disse à Baga que faria de novo o trajeto pelo mangue e pela areia fofa. Muito diferente de tudo o que fizemos até aqui. Esse foi, também, o dia em que as bicicletas mais sofreram.