Leão Serva: Carro, o pior investimento do mundo

Leão Serva é colunista da Folha de São Paulo. Escreve às segundas, a cada duas semanas. É jornalista, escritor e coautor de “Como Viver em São Paulo Sem Carro”.

Quinta-feira (22/9) foi o “Dia Mundial Sem Carro”, mas os congestionamentos não diminuíram. O uso do automóvel para deslocamentos nas grandes cidades é uma burrada imune aos alertas, como o cigarro, que resistiu até o fim do século 20 às evidências de que causa câncer. A propaganda de carros continua oferecendo virilidade e glamour, enquanto entrega congestionamento, estresse, doenças e aquecimento global.

É por isso mesmo surpreendente ver que segue constante o percentual das pessoas que dizem reduzir de alguma forma o uso do carro. Desde a pioneira pesquisa feita pelo sociólogo Antônio Lavareda para o guia “Como Viver em São Paulo Sem Carro” (2012) até o levantamento divulgado pelo Ibope na semana passada, os números estão constantes em torno de 50%. Ou seja: metade dos moradores da maior cidade do Brasil buscam jeitos de usar menos o automóvel.

Há muitas razões para isso. Se uma pessoa pensar direito não usará carro próprio para se locomover. Em primeiro lugar, tem a irracionalidade do próprio hardware: ele gasta cerca de 95% do combustível para levar a si mesmo. Faça a conta: um veículo médio pesa cerca de 1,5 mil quilos. E o motorista, 75kg (5%). E os carros levam geralmente só uma pessoa. Quer coisa mais irracional?

A loucura é ainda maior se pensarmos no uso que fazemos do automóvel. Os usuários em São Paulo andam em média 20 km por dia, em viagens de duas horas (os números não são muito diferentes em outras grandes cidades). As demais 22 horas do dia, o carro dorme (92% do tempo). Calcule se o preço de compra fosse investido: você admitiria que seu banco pagasse juros apenas por duas horas do dia? É por isso que uma empresa financeira norte-americana, Morgan Stanley, chamou o carro de “o ativo mais mal utilizado do planeta”.

Quer mais? Os bancos não pagam juros apenas por duas horas do dia. Em verdade, remuneram os investimentos por todos os 365 dias do ano. Então, se você investe o valor do carro, digamos R$ 40 mil, depois de um ano pode ter algo como R$ 45 mil. Mas se você comprar um carro, doze meses depois ele vale apenas cerca de R$ 32 mil.

Além de perder 20%, anualmente o “possante” ainda custa mais. O IPVA, imposto obrigatório, custa em torno de 2,5% do valor do veículo (R$ 1 mil para nosso exemplo); o seguro custará algo em torno de 4% (R$ 1.600 mil). E, infelizmente, carros precisam de manutenção, cerca de 3% do custo do veículo: some mais R$ 1.200 mil. Ops: só para existir, o veículo já está custando quase 10% do preço, além da desvalorização de 20%. Ou seja, se o banco paga 15% sobre o investimento, o carro cobra 30%…

De todos os custos associados ao uso do automóvel, talvez os mais absurdos sejam os indiretos: os incentivos fiscais que os governos dão para beneficiar quem usa carros. Em um artigo publicado no site “The Atlantic”, Edward Humes calcula que o custo da gasolina deveria ser cinco vezes maior que o atual (no Brasil, a diferença é subsidiada). Veja ainda quanto sua prefeitura gasta com construção de pontes e avenidas, asfaltamento de ruas, hospitais para vítimas de doenças relacionadas ao uso do carro

Os governos usam dinheiro de todos para agradar os donos de automóveis, geralmente mais ricos. É isso que torna mais lenta a redução do uso dos carros particulares nas grandes cidades.

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