Minas Gerais: Diamantina

Alguém disse que toda virtude verdadeira é silenciosa.

Quando estou pedalando pelas montanhas mineiras, penso no poema “A palavra Minas”, de Drummond, “Minas não é palavra montanhosa / É palavra abissal”. Minas é abissal.

Viajar de bicicleta é um exercício de paciência, ainda mais nas montanhas de Minas. Subir um ladeirão e lá do topo olhar para trás e ver o que passou, o que se deixou para trás. Olhar para a frente e ver um vale e outra subida. Viajar sozinho de bicicleta é uma longa e ininterrupta conversa comigo mesmo. Penso no passado e no futuro, e quando me pego pensando demais no futuro, chamo a mim mesmo de volta ao presente, que deve ser vivido a cada metro de estrada de terra vencido.

Quando levo duas horas para fazer 16 km, penso na música que diz “Ando devagar porque já tive pressa / E levo esse sorriso porque já chorei demais / Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe? / Só levo a certeza de que muito pouco eu sei / Ou nada sei.”

Muito pouco eu sei.

Além dessa longa conversa interior, me pego falando sozinho em alguns trechos de estrada.

Passo perto de um mato e um bicho sai correndo dentro do mato, o que será?, cobra, rato, lagartixa? Observo os rastros de animais na areia da estrada, boi, cavalo, e umas patas grandes que podem ser de cão ou lobo guará.

Ontem, uma ave pernalta saiu do mato e caminhou um bom pedaço pela estrada à minha frente até entrar no mato do outro lado, uma siriema eu acho.

Dizem que tem onça nas serras mineiras.

Hoje foi dia de passear a pé por Diamantina. Não dá para chegar aqui no fim da tarde e partir de manhãzinha, a cidade tem muito para ver. É uma cidade muito bonita, encravada na Serra do Espinhaço, com muitas igrejas e casas do 1700 e 1800.

Entretanto, eu esperava mais da cidade, pensando em Ouro Preto e Tiradentes. Aqui, pertinho do centro histórico, já aparecem os terríveis fios e postes. A cidade tem um movimento constante e intenso de veículos em suas ladeiras íngremes de pedra solteira. Carros estacionados em todas as ruas, em qualquer buraco que encontram. E todas as igrejas antigas estavam fechadas à visitação.

Caminhei muito pela cidade, subindo e descendo ladeiras, conhecendo as igrejas e as casas antigas, visitando o Passadiço da Glória, que tem uma história curiosa. As duas casas originais são de épocas diferentes, mas vieram a abrigar um rígido colégio de freiras para meninas. Foi construído o passadiço para que as meninas pudessem passar de um prédio para o outro sem serem vistas na rua.

Enfim, Diamantina vale a visita mas, como ocorre quase sempre no Brasil, há muito descaso com o patrimônio histórico. Amanhã, voltamos à estrada.

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A palavra Minas – Carlos Drummond de Andrade

Minas não é palavra montanhosa

É palavra abissal

Minas é dentro e fundo

As montanhas escondem o que é Minas.

No alto mais celeste, subterrânea,

é galeria vertical varando o ferro

para chegar ninguém sabe onde.

Ninguém sabe Minas. A pedra

o buriti

a carranca

o nevoeiro

o raio

selam a verdade primeira,

sepultada em eras geológicas de sonho.

Só mineiros sabem.

E não dizem nem a si mesmos o

irrevelável segredo

chamado Minas.