Minas Gerais: de Barão de Cocais até o Santuário do Caraça (31 km)

Dia amanheceu muito frio e totalmente encoberto. Tomei o café da manhã e ainda fiquei remanchando, sem tanta coragem de enfrentar o frio. Mas, é o jeito.

Saí do hotelzinho com bicicleta e bagagem, fiz umas comprinhas na farmácia e fui, novamente, admirar a Igreja de São João Batista, dos Mestres Aleijadinho e Ataíde. Fora algumas obras-primas lá de Ouro Preto, essa de Barão de Cocais é uma das mais belas e bem conservadas.

A parte inferior das torres rotacionada em relação à fachada, e as torres cilíndricas na parte superior são características dos projetos do Mestre Aleijadinho. Diz-se que essa igreja deve ter sido feita em duas fases. Na primeira fase, havia mais recursos e as torres foram feitas em pedra até a altura do frontão. Depois, na segunda fase, com menos recursos, as torres cilíndricas foram feitas em alvenaria.

Interior e exterior são belos, muitos elementos de pedra sabão, e três ou quatro altares folheados à ouro.

Depois de rever a igreja, parti de Barão de Cocais. De início, estrada calçada com blocos hexagonais, depois estrada de terra muito bonita, passando por sítios, fazendas e matas. Pequenas, mas íngremes, subidas e, nas descidas, o vento gelado no corpo suado. A gente sobe pingando de suor e desce congelando no frio.

Parei para fotografar a pequena igrejinha de Santo Antonio, havia uma moça junto da igreja, ela trabalhava na escola ao lado, me disse que estava “pitando, pois não se podia pitar dentro da escola”.

A estrada segue muito bonita e acompanha o Rio Santa Bárbara, bastante largo e de boa profundidade. Parei para fazer uma foto do rio e vi um bicho nadando na água, estava só a cabeça de fora, depois o bicho mergulhou a cabeça mas continuou nadando, dava para ver na superfície as ondas que ele formava. Não sei que “bisso” era.

Mais adiante, havia uns rapazes trabalhando ao lado da estrada, perguntei o nome daquele rio, não sabiam, e perguntei se havia jacaré no rio. Eles disseram que não havia, falei do bicho que vi e não souberam dizer o que seria.

Mais adiante, a estrada de terra encontra a rodovia asfaltada que conduz ao Santuário do Caraça. A rodovia começa a subir suavemente, pois se está entrando na Serra do Caraça.

O que significa Caraça? O perfil de alguns picos da Serra, vistos de determinados ângulos, parecem com um rosto olhando para o céu. Esse grande rosto, essa grande cara, essa Caraça é a origem da denominação.

(Isso me lembra meu Tio Zé que, quando criança, sempre pedia um copaço de suco e sempre levava um trompaço da minha avó.)

E o tal Santuário do Caraça? Pois em 1770, o Irmão Lourenço, um religioso português, hoje um personagem até lendário, escolheu a Serra do Caraça para construir uma capela. O local foi crescendo em importância mesmo após a morte do Irmão Lourenço e veio a se tornar um colégio famoso. Em 1968, a parte do complexo que era colégio sofreu um grande incêndio e o colégio deixou de funcionar. Hoje o Caraça é um Santuário, um local de peregrinação e é uma RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural, com mais de 10 mil hectares. Nessa reserva, onde são proibidos quaisquer tipos de animais domésticos, habitam inúmeras espécies, inclusive algumas ameaçadas de extinção, como o lobo guará e uma espécie de macacos.

Portanto, visitar o Caraça era um objetivo longamente esperado por mim.

Fui subindo suavemente e já fiquei feliz quando cheguei na portaria. O rapaz, Sílvio, perguntou se eu ia visitar ou me hospedar. Para apenas visitar há uma taxa de 10 reais. Falei que iria me hospedar, se houvesse vaga. O Caraça recebe milhares de hóspedes por ano e a hospedagem é no próprio Santuário, junto com a comunidade de religiosos.

Sílvio falou com a portaria lá em cima e disseram que sim, que havia vaga. Passei a portaria e continuei a subida que vai ficando cada vez mais forte. Na placa do km 10, quem sobe pode respirar, pois vai ficar pior. Na marca do km 12, é bom respirar e parar, pois a subida vai ficar pior. Na marca do km 14, é bom respirar pois aí é que vai começar a pedreira, que termina lá pelo km 18.

Levei uma hora e meia para fazer a subida que é de treze km a partir da portaria.

No trajeto, se pode ver a Caraça e, quando mais perto, já se vê o Santuário ao longe.

Fui à recepção, a moça me levou ao meu quarto, pois são muitas alas, claustro, corredores, deixei a bagagem e fui almoçar no grande refeitório. A comida é farta, saborosa e frugal, o mesmo tipo de comida de um self-service mineiro. Água para beber e de sobremesa, doce de abacaxi com laranja. Hóspedes comem juntamente com os religiosos da ordem que é proprietária da Reserva.

Toda a edificação é vetusta e bela, quartos, refeitórios, corredores, salas de estar, a igreja neogótica. Uma porta da igreja que dá para o claustro está sempre aberta. O adro, na frente da igreja, tem bancos e cadeiras de ferro, pois é ali que, à noite, todos esperam a visita do lobo guará.

À tarde, fiz a pé, não pode de bicicleta, algumas das muitas trilhas que existem na Reserva. Em uma delas, passei por uma área habitada por macacos, não deu para vê-los, mas eles ficaram bastante agitados com a minha passagem e fazendo os sons macacais.

À noite, fui até a igreja para ver parte da missa, que é cantada e semelhante à do Mosteiro de São Bento, de Olinda. Não esperei o final, e fui jantar no refeitório. Quase o mesmo tipo de comida do almoço, acrescentada de sopas. Sobremesa de doce de banana.

Então, por volta de sete e meia da noite, fui o primeiro a chegar ao adro para o grande acontecimento diário do Caraça, A Hora do Lobo.

A HORA DO LOBO

Na década de 80, os religiosos do Caraça perceberam que lobos guarás estava remexendo nas lixeiras e começaram a colocar bandejas de carne nos portões. Depois, trouxeram as bandejas para perto das escadas da igreja. Posteriormente, subiram as bandejas para o adro e os lobos subiram também. Isso não modificou os hábitos alimentares dos lobos, que mantém o hábito de caçar. Eles passam no adro na hora em que querem, antes ou depois de caçarem.

Poizentão, por volta de sete da noite, a bandeja de carne e frutas já estava lá colocada. O lobo não tem hora para passar, tanto pode ser cedo quanto de madrugada. Quem pretende ver o guará tem que ter paciência e resistência.

Nessa noite, o frio estava intenso. Eu vesti uma camisa de pedalar, uma camisa de algodão manga longa, uma camisa sintética manga longa e o meu corta-vento. Vesti a calça de pedalar, uma calça de algodão e uma calça de material sintético, meias e sapatos. Só esqueci do boné para esquentar meu coco. Mesmo assim, frio intenso.

Os bancos são de ferro e gelados. Sentei junto de um casal de Nova Friburgo/RJ que me vira chegar de bicicleta e com o qual eu havia encontrado em uma das trilhas da tarde. Eles estavam no Caraça desde o domingo e me falaram que, na noite do domingo, havia muita gente no local e ninguém viu o lobo.

Isso mostrou o acerto da minha decisão de não subir ao Caraça no domingo, pois eu imaginava exatamente que haveria mais gente, mais barulho. Além disso, a missa do domingo é bem mais tarde, tudo isso contribui para que o lobo não se aproxime em uma hora mais conveniente.

Então, se você quer ver o guará, evite os finais de semana.

Bom, um dos padres ou um dos monitores fazia barulho arrastando a bandeja e chamava “guará!, guará!”, vez em quando. Mas isso, nem ninguém, garante que o lobo venha. Os hóspedes estávamos todos ali, conversando em voz baixa, enfrentando o frio, esperando. Perto de mim e do casal, estava uma moça de Minas, Laura, bióloga, e sua amiga, botânica, estrangeira, não sei de qual país, mas que se comunicava em inglês.

Alguns padres e monitores contavam particularidades sobre os animais. Um padre me falou que quando havia banana na bandeja, isso era a primeira coisa que o lobo comia, e quando havia mamão, esse era comido por último. O monitor disse que uma anta vinha comer ali, às vezes, e também cachorros-do-mato e gambás.

O fato é que o lobo vem todas as noites, mas ninguém sabe a hora.

O tempo foi passando e o frio aumentando e as pessoas desistindo. A Casa oferece chá quentinho e pipocas para amenizar a espera. Eu dizia ao casal de Friburgo que iria até amanhecer o dia esperando o lobo. Havia um rapaz já dormindo em uma cadeira dura de ferro. Falei que era melhor a gente dormir ali também, e a moça me disse que o perigo era a gente dormir e acordar com a bandeja vazia. Sugeri, então, deitar no chão junto da bandeja, daí o próprio lobo nos acordaria.

Já eram mais de onze e meia da noite, um frio duca, o marido já havia dado um ultimato, mais quinze minutos e ele iria para o quarto quentinho. A bióloga e a botânica já haviam desistido e alguns estavam lá dentro perto do chá e da pipoca. Esperando o lobo, mesmo, só restavam eu e o casal e um grupo de três religiosos. A gente conversava ainda, nem mais em voz baixa, Nelson até dizia que não existia lobo.

Nesse momento, um padre fez sinal para baixarmos a voz, eu me arrepio até agora, o lobo vinha subindo as escadas. Todos fizemos um silêncio absoluto. Algumas pessoas vieram lá de dentro, mas não saíram, ficaram nas portas.

O lobo subiu silencioso, comeu, olhava para os lados e para a ladeira de onde ele tinha vindo. Antes, já nos haviam dito que eles não se incomodavam com os flashes, mas que evitássemos movimentos bruscos.

Só posso usar de chavões para descrever. É um momento mágico, fantástico, incrível, a gente não acredita que está acontecendo, que a gente está a um metro e meio de um animal como aquele, 95 cm de altura, 1,45 do focinho à cauda.

O monitor nos disse depois que aquele era uma fêmea, e o comportamento dela me leva a crer nisso. Ela, a guará, não se incomodava conosco, mas olhava e escutava repetidamente para o fim da ladeira de onde veio. Comia, mastigava, partia ossos, levantava a cabeça, escutava, olhava. Depois de algum tempo, ela desceu as escadas com um grande pedaço de carne na boca, sem mastigá-lo.

Então, voltamos a respirar. E a falar baixinho. Eu me levantei e fui para perto da bandeja. Depois subi dois degraus da porta da igreja, me virei para a escada e a guará estava voltando. Fiquei sem fala e caminhei devagar de volta ao banco, onde o casal e os religiosos ainda não haviam notado a volta dela.

Repetiram-se os movimentos de comer e olhar e escutar. A botânica e a bióloga haviam sido chamadas e puderam ver essa segunda aparição.

A loba foi embora novamente, ainda esperamos um pouco, e o pessoal foi voltando aos seus quartos. Ficamos eu e um monitor, e chegou um rapaz que havia perdido a cena. Fui deitar. No outro dia, esse rapaz me disse que a guará voltou mais uma vez, à meia-noite e dez, e ele estava só e teve a oportunidade de vê-la.

Fantástico.

Para ver as fotos que tirei do lobo guará, clique aqui.

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4 thoughts on “Minas Gerais: de Barão de Cocais até o Santuário do Caraça (31 km)

  1. Que relatão!
    Fica até difícil comentar com tantas coisas contadas.
    O bisso no rio era uma lontra kkkkk

    Incrível a história e a beleza desse santuário. Valeu muito à pena a ida, a espera, tudo.

    Então quer dizer que a loba era uma fêmea. Então deve haver outros. 😀

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    1. Sim, há outros, e ela está com filhotes, mas quando os filhotes se tornam adultos, eles partem ou brigam com os pais pelo território. Como a prática da bandeja vem desde 1982, muitos lobos já devem ter passado por lá. O lobo vive cerca de 14 anos.

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  2. Paulo,
    Parabéns pelo blog, querendo dizer, pelas suas aventuras tão especiais, seu percorrer das entranhas do planeta, os relatos, as fotos, tanto esmero, tanta quase-perfeição, parabéns.
    Se-quando quiser, umas minhas antigas bicicletadas:
    ‘Guiné-Bissau – Recordações em Imagens’ – http://guinebissaulembrancas.blogspot.com.br/
    ‘Diário de Bordo – Foz do Iguaçu a Buenos Aires’ – http://igu-bue.blogspot.com.br/
    Sua descrição do encontro com o lobo guará lembrou-me de um encontro que tive com golfinhos – http://simples-escritos.blogspot.com.br/2006/10/xtase-ii.html
    Ou esse encontro aéreo com o planeta – http://simples-escritos.blogspot.com.br/2006/10/xtase-i.html

    Um abraço e boas viagens !

    Nelson e Mara

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