Minas Gerais: de Morro do Pilar até Senhora do Carmo (51 km)

Durante o café da manhã na excelente Pousada Indaiá, passei mais de hora proseando com Dona Edelvais. Conversamos sobre os ciclistas da Estrada Real que pousam lá, sobre a Estrada e algumas cidades, sobre Morro do Pilar, sobre a ação das tenebrosas mineradoras, foi muito assunto.

Dona Edelvais me disse que o médico indicava nomes para os pais dela, quando nascia um filho, porque os pais queriam todos os filhos com a letra E. Assim vieram uns oito ou nove, não decorei, como Ercílio, Elena e mais. Entretanto, o último filho, um menino, teve nome diferente. Como o sobrenome da família é Tomás, o pai batizou o último filho de Tomás, e o resultado foi: Tomás Tomás. Deve ser o único duplamente Tomás no mundo. Parece ficção, mas não é.

Ela me contou de muitos ciclistas que passam por ali. Dona Edelvais faz questão, mesmo quando a pousada está cheia com pessoal das mineradoras, de deixar um quarto vago “para meus ciclistas”, diz ela. Ela faz uma divisão entre ciclistas e “aventureiros”. Aventureiro é aquele que vai para a Estrada Real meio sem planejamento, na doida. Gente que chega na cidade noite fechada, sem ter mais onde comer, por exemplo.

Ela me contou a história de uma menina, novinha e bonitinha, cerca de 20 anos, que começou a Estrada em Diamantina, e lá adotou um cachorro, conseguiu prender um caixote no bagageiro, por cima dos alforjes, e trouxe o cachorro com ela. A moça, de Vitória/ES, batizou o cachorro de Atraso. Pois bem, no trajeto para Morro do Pilar anoiteceu e a moça ainda no caminho. Passou um motociclista, ela pediu para ele parar, e pediu ao rapaz que quando chegasse no Pilar, mandasse um carro, um táxi, para buscá-la, pois naquele breu ela não ia conseguir chegar. O motociclista, então, se ofereceu para ir devagar, ao lado dela, iluminando a estrada, e assim fizeram. A moça e Atraso se hospedaram na pousada de Dona Edelvais. A moça disse que toda subida ela não aguentava e subia empurrando, e na descida ela descia atabacada para compensar. É loucura, claro, pois as descidas são insanas. Dona Edelvais pediu que ela não fizesse isso, pois em uma queda ia morrer a moça e Atraso também.

Dona Edelvais contou também a história de duas moças, cerca de 30 anos, de Curitiba/PR, que pedalavam na cidade delas em bicicletas alugadas, daí ouviram falar da Estrada Real e resolveram fazer. Não pareciam ciclistas, ela disse, pareciam “meninas de escritório”. Compraram bicicletas e estrearam as bicicletas na ER. Uma delas comprou a bicicleta três dias antes de começar a Estrada. Não sei como conseguiram chegar em Morro do Pilar, mas chegaram de noite, lanhadas, descabeladas, esgotadas. Uma delas disse que nem sabia passar marcha direito e que toda vez que passava a marcha, olhava para o câmbio para ver se havia funcionado. No dia seguinte, conseguiram contratar um carro para levá-las até Ipoema, pois depois de Ipoema a ER-Caminho dos Diamantes fica mais fácil. E não sabemos mais delas.

Sobre as mineradoras, nossa conversa girou em torno do extremo mal que elas fazem ao ambiente, destruindo morros e a paisagem, consumindo toda a água dos mananciais e transformando essa água em lama, e perpetrando crimes como o de Bento Rodrigues, em Mariana. Ela confirmou o que eu já havia visto, que as mineradoras compram todas as fazendas de uma região. Tentaram comprar as terras que foram do pai dela, lá tem platina, mas ela ainda não vendeu.

Eu disse a ela que tinha visto uma jaguatirica morta, provavelmente atropelada, outro dia, e uma siriema que atravessou a estrada calmamente. Ela me disse que nas terras do pai dela tem tucanos e siriemas, e que as siriemas vem comer na mão dela, e que gostam de jabuticaba e de carne. Falou que já viu uns lobos guarás nas estradas da região.

Ela ainda me mostrou um livro enorme com fotos antigas e novas do Morro do Pilar, inclusive fotos e localização de cachoeiras, grutas e antigas minas. Foi muita prosa, sô!

Depois disso tudo, aprontei a bagagem e parti.

Durante os primeiros 15 km, o relevo é mais suave, para o padrão ER, e a estrada de terra acompanha o Rio Picão e, mais adiante, o Rio do Peixe. Depois de cruzar o Rio do Peixe é que vem a parte pesada. Ainda perto do primeiro rio, parei junto a uma capelinha que o povo da região fez e fotografei. Depois do Rio do Peixe, em uma subida, vi uma segunda siriema na estrada, bem maior e mais bonita que a anterior. Ela ia mais rápido que eu, e não vi o ponto onde ela deixou a estrada e entrou no mato. Mas fui subindo e acompanhando as pegadas dela e fotografei uma das pegadas.

As subidas são, como de costume, imensas, mas dá para subir tudo pedalando. Quando a estrada se aproxima de Itambé do Mato Dentro, lá pelos 30 km de pedal, começam as descidas.

Nesse trecho, há umas impressionantes formações rochosas. Curiosamente, fizeram uma estátua em cima de uma delas, pois dizem que ali viveu um ermitão, dentro de uma caverna formada pelas rochas. Nesse belo local rochoso, havia algo inédito na ER: um monte de gente em cima das pedras, e quando cheguei mais perto vi uns 20 carros estacionados, um cara filmando, um fotografando, e um cara manobrando um drone que flutuava sobre as rochas. Não entendi nada, nem perguntei, pensei que fosse cena de novela, e segui.

Depois dessas rochas, a estrada entra em um trecho de planura, mas não adianta, pois a estrada fica com muitos trechos de areia fofa. Nunca tem plano na ER e quando tem, vem areia fofa.

Por fim, um descidão e cheguei à Itambé do Mato Dentro. A cidade não me agradou muito, estava paradona, tem uma igreja sem atrativos. Fui passando e encontrei um Hotel-Bar-Restaurante, parei e subi para comer, era no primeiro andar, self-service, fogão à lenha. Fiz um prato bem moderado, pois não pretendia ficar ali. Havia pedalado 36 km, eram quase duas da tarde. Comi com moderação e uma Brahma garrafa. Sobremesa foi doce de batata-doce, e ainda comprei duas águas de 500 ml. Tudo deu 18 reais. A moça que me atendia disse que a diária ali era de 50 reais e sugeriu que eu ficasse, mas queria seguir. A moça me disse que o pessoal que estava nas rochas era de uma filmagem da Volvo, chamada Volvo pelo Mundo.

A saída da cidade é toda em subida imensa, mas a estrada foi asfaltada até Senhora do Carmo, 15 km adiante. Entre muitas subidas e descidas, segui para a próxima cidade. Parei, ainda, em uma capelinha muito improvisada na beira da estrada.

Cheguei à Senhora do Carmo, que é um distrito bem pequeno. Estava na dúvida em continuar, pois a próxima cidade distava 17 km de terra. No centro de Senhora do Carmo, vi a Pousada Neves, fui até lá, Dona Maria Isabel e Seu Roberto me mostraram a pousada, na verdade, quartos da casa deles, disseram para escolher o quarto, e fiquei lá, por 50 reais a diária.

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Pousada Indaiá
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Pousada Indaiá
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Pousada Indaiá
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Estrada Real
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Estrada Real
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Rio Picão
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Rio Picão
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Rio Picão
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Rio Picão
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Capelinha de melão

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Capelinha de melão

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Capelinha
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Capelinha
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Capelinha
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Capelinha
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Estrada Real
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Estrada Real
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Pegada de siriema
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Estrada Real
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Rio do Peixe
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Rio do Peixe
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Estrada Real
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Estrada Real
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2 thoughts on “Minas Gerais: de Morro do Pilar até Senhora do Carmo (51 km)

  1. Ri foi muito com os causos de Dona Edelvais. Tadinha podia ter um nome mais bonito como Tomás Tomás.
    Não sei se foi sorte ou azar de Atraso ter encontrado a louca da bicicleta.
    E esses aventureiros eu chamo é de doido mesmo porque uma Estrada tão difícil e essas criaturas sem preparo nenhum inventam de fazer. Só Jesus na causa mesmo.
    Essas siriemas só me lembram vovis. Hehehehhe
    Ali não podia amarrar animais mas bicicleta ok né ? Kkkkkkkkk

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