Minas Gerais: De Santana do Riacho até Tabuleiro (44 km)

Hoje, um trajeto extremamente difícil.

Eu já fiz a travessia da Serra do Cipó uma vez e foi muito difícil. Na época, subimos de Santana do Riacho para Lapinha da Serra e de lá para Congonhas do Norte. Levamos o dia todo nessa brincadeira e chegamos às seis da tarde em Congonhas.

Dessa vez, eu quis cruzar a Serra do Cipó em direção ao Distrito de Tabuleiro, pois essa é uma bela região que não conheço. Foi uma insanidade, devo confessar.

Bom, vamos do princípio. O jantar de ontem, na Pousada Três Corações, muito bom. Dona Rosário serviu porco, feijão, arroz, tomates, alface, e umas verduras cozidas, um pouco apimentadas, que pareciam bastante com ratatouille, curiosa essa semelhança mineira. Entretanto, o café da manhã foi paupérrimo: pão, queijo, café e margarina.

Saí da pousada e comecei a subida para Lapinha da Serra, o primeiro objetivo do dia. Como sempre aqui em Minas, é só subida, mas a estrada é muito bonita. O paredão da Serra na frente, subidas imensas e íngremes, mas consegui subir pedalando, só paciência. A pior subida foi pavimentada, com um tipo de pedra.

O curioso é que após essa subida da pedra solteira, a Serra desapareceu. Cadê os picos? Acontece que agora nós estamos na Serra, em cima da Serra, os picos estão ao meu lado e eu pedalava ao lado dos picos. Cheguei à Lapinha da Serra, que é um lugar bastante isolado, mas com muitas pousadas, restaurantes. De fato, há até mesmo um certo misticismo na região, uma comunidade algo zen, algo afastada do mundo. As casas, pousadas e restaurantes são sempre bem produzidos, criativos.

Entrei na Lapinha, comprei água e parti em direção à represa. Iniciava o segundo trecho do dia.

Pedalei contornando a represa e saindo da Lapinha. Logo mais, a estrada desaparece e começa uma trilha e a trilha vai ficando cada vez mais difícil. Esse difícil significa pedras, cascalho, rochas, estreito, e subindo. Na verdade, não recomendo a ninguém fazer esse trajeto com bicicleta, ainda mais com bagagem. É aquilo que chamam de escalaminhada, a pessoa está subindo caminhando. Com bicicleta e a bagagem, eu estava escalando e carregando toda essa carga.

Os cumes afiados da Serra à minha esquerda e eu subindo carregando a bicicleta. Em um topo, vi ao longe um casal que vinha na minha direção. Nos encontramos em uma passagem baixa, entre dois cumes. Conversamos e eles me disseram que com mais meia hora de subida, eu chegaria a um platô, e a trilha melhorava.

Continuei subindo e subindo, arrastando a bicicleta. Cheguei a uma capelinha de pedra, levei umas duas horas para chegar ali e ainda via a Lapinha lá embaixo. Um dos parafusos que prendia o bagageiro havia quebrado. Sentei em frente à capelinha, devia ter rezado, mas abri o alforje e a bolsa de ferramentas e dei um jeito de fixar o bagageiro. Comi um biscoito, mas vi que se comesse mais iria ter sede e era necessário economizar água. Pensei em voltar para Lapinha e desistir da travessia, mas decidi continuar.

No gps havia a marca de um cume, e pensei que depois desse cume a trilha melhorava, então continuei. Mesmo com o gps, errei o caminho para o cume, pois a trilha à esquerda era tão íngreme que peguei a da direita. Essa não tinha saída e voltei e escalei a trilha para o tal cume.

De fato, depois do cume, estendia-se a minha frente uma descida e um platô, inclusive com gado pastando. A descida não era suave nem pedalável, mas foi sem problemas. O platô, enfim era pedalável. Não havia estrada, era uma trilha, single track no meio do capim e das pedras. Passei pelo gado e continuei, dava para pedalar. Eu estava do outro lado das montanhas que via há tanto tempo.

Contudo, infelizmente, não era ali que começava a descida, pois esse platô é como uma bacia, um vale, entre duas cristas. Fui pedalando pelo platô, cruzando riachos e as trilhazinhas desembocaram, enfim, em uma estrada. Que alegria ver uma estrada, pensei que estava salvo, que logo chegaria à civilização. Mas que nada, doce ilusão. A estrada ajudou, mas ainda não levava ao objetivo do dia. Seguindo a estradinha, subi e contornei alguns montes e cheguei a outro tipo de platô. A estradinha agora seguia paralela ao Parque do Tabuleiro e eu pensava que seria fácil continuar por ela até a sede do parque.

Entretanto, a estradinha não entrava no Parque. Parei na entrada do Parque e me despedi da estrada. Dentro do Parque do Tabuleiro, voltaram as trilhas. De início, eram pedaláveis, mas depois de um trecho, só empurrando a bicicleta. Fui me arrastando, preocupado com a hora, pois não deveria estar ali quando escurecesse. Muitas porteiras, placas de orientação do parque e muitos córregos. Poucos trechos pedaláveis, mas não havia subidas íngremes.

No Córrego da Água Preta, não vi passagem. Cheguei ao córrego e ele passava lá embaixo, uns dois metros abaixo da trilha, que continuava do outro lado. Rodei para um lado e para o outro no meio do mato e nada de passagem. Voltei para o ponto da trilha e vi que havia um tronco um metro abaixo, preso entre as duas margens, para a travessia. Soltei alforjes e atravessei com eles, depois atravessei com a bicicleta.

Depois de muito empurrar por essas trilhas, vi ao longe dois cachorros que latiram para mim. Que alegria ver cachorros, os donos deveriam estar por perto, e imaginei que iria encontrar uma estrada. Os dois cães ficaram me esperando na trilha. Cheguei, eles latiram, eu lati para eles e segui, eles vieram me acompanhando. Mais adiante, uma casinha e um curralzinho. Gente. Fazia horas que eu não via gente.

Havia três pessoas na casinha, uma moça e dois rapazes, estavam percorrendo as trilhas da região a pé. Pedi água, a minha estava acabando, eles encheram a minha garrafa de 1,5l. Perguntei sobre a rota a partir dali, onde é que eu encontraria uma estrada. Eles disseram que dali até a entrada do parque só havia trilha, até pior do que aquela em que eu vinha, mas era tudo descida.

Então, era enfrentar, e logo, pois a hora do pôr-do-sol se aproximava. Comecei a descida, trilha de pedra, rocha, cascalho, muito difícil. Faltava pouco para chegar na estrada do parque quando quebrou o outro parafuso do bagageiro. Não havia nem espaço adequado para abrir a bolsa de ferramentas. Coloquei os alforjes no ombro e segui carregando bicicleta e alforjes. Mais adiante, coloquei os alforjes sobre o selim, ficou melhor, e dava até para montar na bicicleta em alguns trechos.

Cheguei na estrada de acesso ao parque, estrada de barro vermelho. Sentei, bebi muita água, respirei, soltei alforjes, peguei a bolsa de ferramentas, mas não consegui dar um jeito no bagageiro. Era por volta de cinco e meia, ainda havia bastante luz do dia e a estrada era descendo. Coloquei os alforjes sobre o selim e aproveitei a descida, não precisava pedalar. Cheguei na entrada do parque, ia precisar pedalar. Soltei um alforje do outro, aumentei a distância entre eles e coloquei-os no pescoço, um para frente, outro para trás. Assim, consegui pedalar até o distrito de Tabuleiro. Peguei informação e encontrei a Pousada Gameleira e me hospedei. Deixei para lavar a bicicleta e cuidar do bagageiro no dia seguinte. Tomei um banho de roupa e tudo, é a técnica para lavar a roupa já no banho, saiu um caldo preto. Depois do banho, jantei na pousada.

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4 thoughts on “Minas Gerais: De Santana do Riacho até Tabuleiro (44 km)

  1. Você não é o Tarzan pra cruzar a Serra do Cipó. Devia ter desistido.
    Você não sentou e rezou, mas eu rezo daqui.
    Quanto mais eu lia mais aumentava a angústia e o pensamento “não acaba esse maldito caminho e o objetivo não chega nunca?”

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  2. Olá. excelente relato. Vi no seu outro blog a travessia pa congonhas do norte. Quero fazer esse trajeto (lapinha – congonhas). Qual achou mais dificil? Dá para fazer sozinho?

    Liked by 1 person

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