Recife (PE) – Jijoca de Jericoacoara (CE)

Resumo e índice da cicloviagem que fizemos, Paulo e Bagaceira, de Recife (PE) até Jijoca de Jericoacoara (CE).

mapa

1º dia: Recife (PE) – Pitimbu (PB) – 88 km

2º dia: Pitimbu (PB) – João Pessoa (PB) – 58 km

3º dia: João Pessoa (PB) – Baía da Traição (PB) – 61 km

4º dia: Baía da Traição (PB) – Baía Formosa (RN) – 57 km

5º dia: Baía Formosa (RN) – Tibau do Sul (RN) – 28 km

6º dia: Tibau do Sul (RN) – Natal (RN) – 42 km

7º dia: Natal (RN) – Maracajaú (RN) – 66 km

8º dia: Maracajaú (RN) – São Miguel do Gostoso (RN) – 60 km

9º dia: São Miguel do Gostoso (RN) – Suspiro da Baleia – 17 km

10º dia: São Miguel do Gostoso (RN) – Galinhos (RN) – 84 km

11º dia: Galinhos (RN)

12º dia: Galinhos (RN) – Ponta do Mel (RN) – 100 km

13º dia: Ponta do Mel (RN) – Tibau (RN) – 62 km

14º dia: Tibau (RN) – Praia de Peroba (CE) – 38 km

15º dia: Praia de Peroba (CE) – Canoa Quebrada (CE) – 39 km

16º dia: Canoa Quebrada – Morro Branco (CE) – 90 km

17º dia: Morro Branco – Fortaleza (CE) – 85 km

18º dia: Fortaleza (CE)

19º dia: Fortaleza – Taíba (CE) – 60 km

20º dia: Taíba – Lagoinha (CE) – 51 km

21º dia: Lagoinha – Icaraí de Amontada (CE) – 77 km

22º dia: Icaraí de Amontada – Itarema (CE) – 41 km

23º dia: Itarema – Jijoca de Jericoacoara (CE) – 72 km

Jijocando e Jacaré-coarando – final da cicloviagem

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Final da cicloviagem e dias em Jijoca (CE)

Bom, nossos últimos dias de férias foram usados para aproveitar e conhecer parcialmente a região em torno de Jijoca de Jericoacoara.

Na segunda-feira, fui até o centro da cidade de bicicleta, de manhã cedinho, mas voltei logo, ansioso para curtir a Lagoa de Jijoca. Então, eu e Bagaceira saímos para uma caminhada pela margem da Lagoa. Não dá para descrever como é a bela a Lagoa e seu entorno. Águas límpidas e transparentes, areia branquinha, redes dentro d’água, alguns poucos bares e pousadas nas margens. Andamos durante muito tempo, mergulhando nas águas vez em quando, e ainda assim não chegamos a completar um lado inteiro da Lagoa, ela é muito grande. Fizemos o percurso de volta e almoçamos na beira da lagoa, no restaurante da pousada em que estávamos, a Flambaião. O restante da tarde, ficamos “jacaré-coarando” na beira da lagoa.

No final da tarde, Diego, o proprietário da pousada, propôs um passeio até a vila de Jericoacoara. Fomos, todos os hóspedes, cerca de nove pessoas, com Diego e o filho dele, Felipe, até a vila. Foi bom, entre outras coisas, para comprovar que não dava para ir até lá de bicicleta. Para chegar na vila e praia de Jeri, há uma estrada de calçamento de pedra por cerca de 10 km, daí se entra no Parque Nacional, e a estrada é de areia fofa entre dunas por cerca de mais 10 km. Além disso, há inúmeras bifurcações, pois são muitas trilhas dentro do Parque. Esse trecho do Parque é belíssimo, parece um deserto com enormes dunas, verdadeiras paredes de areia.

Na vila, fomos até a praia, há uma duna à esquerda bem na beira-mar, na qual as pessoas sobem para ver o pôr-do-sol, um formigueiro de gente lá em cima. Depois, passeamos pela vila, que tem todas as ruas de areia fofa, não há calçamento. Entretanto, esse clima rústico é quebrado pelas lojas e restaurantes. Jeri parece um shopping com ruas de areia. De todo modo, comemos excelentes tapiocas na Casa da Tapioca. Voltamos à noite, por entre as dunas, mas, claro, Diego conhece todos os caminhos por ali.

Na terça-feira, saímos da pousada e fomos para a estrada tentar pegar um transporte para Jeri. A ligação entre Jijoca e Jeri é feita por veículos D-20, Hilux e Toyotas adaptados, com bancos na carroceria para transportar passageiros.

As D-20 que passavam para Jeri estavam cheias e não paravam, então a gente foi caminhando em direção ao centro. Por sorte, encontramos uma D-20 vazia estacionada e pegamos. O motorista ainda foi ao centro procurar mais passageiros, e encontrou uma família que subiu a bordo, e fomos todos para Jericoacoara. Novamente, admiramos a incrível beleza das dunas do Parque Nacional.

No centro de Jeri, compramos água mineral de 1,5 litro, descemos à praia e começamos a caminhada para conhecer a Pedra Furada. A distância entre o centro de Jeri e a Pedra Furada é cerca de 3 km. Dá para ir pela praia, com alguma dificuldade por conta de pedras, apenas na maré baixa. A maré ainda estava baixando. Seguimos um trecho pela praia e, no início das pedras, subimos o morro que eles chamam de Serrote. A vista de lá de cima é belíssima. Muitos turistas não vêem ou conhecem esse trecho e esses panoramas, pois a maioria vai de D-20 ou Buggy até perto da Pedra.

Seguimos por cima do Serrote, parando a todo instante para admirar a fantástica paisagem de pedras e mar lá embaixo. Nessa caminhada pelo Serrote, Bagaceira começou a se achar a própria Noviça Rebelde e a cantar Edelweiss e rodopiar pelas colinas. Aproximadamente na metade do caminho já dava para ver a Pedra Furada no limite da curva da praia. Nesse ponto, descemos para a praia pelo meio de uma duna, afundando os pés na areia quente. A Noviça Rebelde desceu cantando e fazendo algum tipo esquisito de palhaçada. Claro, observe-se, que nós estávamos de tênis e de camisas de manga longa e chapéu, para nos protegermos do sol e das pedras.

Continuamos pela praia pois esse trecho é um pouco mais fácil, mas as pedras ainda são enormes e há que subir, descer e passar entre elas. Dessa forma, descobrimos uma outra pedra furada em miniatura, passamos por dentro dela, e mais adiante, uma passagem entre pedras que se apoiavam umas nas outras. Dava medo pensar que elas ainda podem, um dia, se mover. De qualquer forma, essa paisagem é deslumbrante.

Chegamos à Pedra Furada, uma formação geológica que impressiona, admiramos o lugar e iniciamos o retorno. No ponto em que descemos para a praia, decidimos não subir o Serrote e continuar pela praia, a maré estava baixa e ainda baixando. Entretanto, mesmo com maré baixa, esse trecho é difícil de fazer. Pedras afiadas, grandes, irregulares, às vezes escorregadias. Às vezes, conseguíamos passar pelo mar, com água no joelho, às vezes por entre as pedras, procurando o trajeto menos difícil.

Cruzamos esse trecho mais pesado, chegamos ao mais fácil e depois à praia central de Jeri. Calculamos que levamos três horas de ida e volta. Almoçamos em um restaurante na praia, passeamos pela vila chique, compramos filme plástico em um supermercado para embalar as bicicletas, e pegamos uma D-20 para voltar à nossa Lagoa de Jijoca.

Na quarta-feira, a gente só queria aproveitar a Lagoa. A paisagem natural do percurso até a Pedra Furada é belíssima, mas a vila de Jeri é artificial, badalada e agitada. Isso nos deu saudade da paz e tranquilidade da Lagoa. Passamos a quarta-feira “jacaré-coarando” na Lagoa, nas suas margens, nas suas águas e redes. No final da tarde, desmontei e embalei as duas bicicletas com filme plástico, para o voo de volta a Recife. À noite, jantamos no Flambarzinho, o belo e simpático bar da pousada. Enfim, voltamos para Recife em um voo da Azul com nossas bicicletas embaladas, com tranquilidade.

23º dia: Itarema – Jijoca de Jericoacoara (CE) (72 km)

Após a parada estratégica em Itarema, fizemos pelo asfalto da rodovia CE-85 o trajeto de 72 km até Jijoca de Jericoacoara. Para quem não conhece a região, devo dizer que é quase impossível – ou extremamente difícil – chegar de bicicleta pela praia até a vila de Jericoacoara. Há inúmeros rios sem possibilidade de encontrar barco para travessia e o trecho final, entre Preá e Jeri, pela praia, não dá passagem por conta de muitas e enormes pedras. Além disso, indo por Jijoca também não é possível chegar de bicicleta até Jeri, só se for empurrando a bicicleta em 8 km de areia fofíssima, por dentro do Parque Nacional de Jericoacoara.

Portanto, desde muito antes, a gente já havia decidido seguir pelo asfalto até a sede do município, Jijoca de Jericoacoara, e procurar hospedagem junto à Lagoa de Jijoca, para depois visitar a vila de Jeri.

Bom saber que Jijoca é o município onde fica a vila ou distrito de Jericoacoara. O pessoal da região nos disse que a palavra Jijoca é a junção dos nomes do índio Ji e da índia Joca, casal que habitou essa região. Jericoacoara, dizem que significa jacaré coarando ao sol, pois a linha da costa vista do mar lembra um jacaré. Contudo, essa explicação parece ser meio romantizada ou inventada, pois é mais provável que, em tupi, Jijoca signifque “casa das rãs (jias)” e Jericoacoara signifique “buraco das tartarugas”.

Nesse dia, então, um domingo, deixamos Itarema e pedalamos pelo asfalto, passamos por Acaraú e Cruz e chegamos em Jijoca. O dia esteve nublado, sem chuva, o que foi melhor para nós, o calor não foi tanto no asfalto. Entramos no centro de Jijoca, a cidade estava parada, domingo, quase tudo fechado, mas encontramos um self-service, 14 reais por pessoa sem balança. Comemos muito e bem, com cervejas geladinhas. Durante o almoço, conversamos com um rapaz da cidade que nos deu algumas orientações sobre pousadas.

Pelos mapas, a gente pensava que a Lagoa de Jijoca, também conhecida como Lagoa do Paraíso, ficava bem pertinho do centro. Não é assim, a Lagoa fica distante 5 km do centro. Há pousadas no centro e há pousadas na beira da Lagoa. Com a orientação do rapaz, depois do farto almoço, fomos para a beira da Lagoa e vimos algumas pousadas. Entrei em uma menorzinha que me pareceu mais simpática e tranquila.

Logo de cara, conheci os donos, Núbia e Diego, e ele, muito atencioso já foi me oferecendo um desconto na diária. Chamei Baga, olhamos o quarto, gostamos muito do aspecto da pousada e do quarto. Essa Pousada Flambaião é menor que as outras e muito mais agradável.

Deixamos tudo no quarto e fomos para dentro da Lagoa. Posso dizer com toda a certeza que o melhor dessa região é a Lagoa de Jijoca, belíssimo lugar, águas transparentes, tranquilo, silencioso, melhor mesmo que a praia de Jeri.

Assim, após cerca de 1.300 km pedalados, nós encerramos nossa cicloviagem nesse lugar inesquecível que é a Lagoa de Jijoca. Entretanto, farei ainda algumas postagens descrevendo nossos passeios em Jeri e até a famosa Pedra Furada.

 

22º dia: Icaraí de Amontada – Itarema (CE) (41 km)

Dia que teve trechos muito, muito difíceis.

Após o ótimo café da manhã de Dona Ivone, saímos da pousada pedalando pela praia de Icaraí de Amontada. A maré estava baixando e já permitia pedalar. Entretanto, alguns quilômetros à frente, um trecho de pedras que só permitia a passagem por cima, pela areia fofa. Depois desse trecho, pedal suave na areia dura, novamente.

Quando chegamos na localidade de Moitas, encontramos uma grande tartaruga morta na praia, e parecia ter sido recente a morte, pois a tartaruga ainda estava inteira e sem mau cheiro.

Após Moitas, entramos pela estradinha do mangue que leva até o barco que faz a travessia do Rio Aracati Assu. Pedi ao rapaz do barco que nos levasse até a praia, é mais longe, pois do outro lado do rio é uma imensa área de mangues. Ele se recusou, disse que o barco não tinha um motor forte. Não encontramos outro barco por ali. Não gostei de ter que atravessar para o mangue, mas foi o jeito.

Descemos no mangue e seguimos empurrando. Há uma trilha marcada, tanto no gps, quanto por dentro do mangue, pois foram colocadas fitas vermelhas nas árvores para que a gente saiba o caminho. É um mangue imenso com poucas partes secas. Nós empurramos dentro da região alagada, cheia de chiés e siris na água clara.

Apesar da trilha ser marcada, a gente tinha que desviar em alguns trechos para procurar partes mais rasas. Em alguns trechos, a passagem de veículos 4×4 havia tornado o lugar um pouco mais fundo e mole, o pé afundava na lama. Seguimos com dificuldade por 2 km de alagados, até que a trilha subia para uma parte seca.

Então, piorou. A trilha seca era de areia fofíssima, areia de duna, no meio da vegetação. Sofremos empurrando as bicicletas por mais 2 km. Enfim, encontramos três pescadores que vinham pela trilha e que nos disseram que a areia fofa acabava logo na frente.

Era um povoado bem pequeno e a trilha se tornou estrada de barro duro. No fim do povoado, na bifurcação da estrada, um bar bem humilde, crianças na frente, paramos e tomamos duas cervejas em lata geladinhas, uma delícia naquela situação. Conversamos com algumas pessoas no bar sobre a passagem do mangue e a nossa viagem.

Na bifurcação havia decisão a tomar: à esquerda, estrada de barro até a balsa da travessia do Rio Aratimirim e, à direita, a estrada ia até a praia, e pela praia até a vila de Torrões e procurar um barco para a travessia. Escolhemos a praia.

Seguimos pelo barro e vimos o mar, mas ainda estava distante, havia que atravessar mais um braço de mangue, amplo e aberto, sem problemas. Enfim, chegamos à areia dura da praia e pedalamos direto até o Rio Aratimirim. Na frente da vila de Torrões, havia alguns barcos, mas não havia ninguém. Uma moça gritou de lá do outro lado do rio que, se quisesse atravessar, eu deveria ir chamar um pescador nas casas por trás de mim. Fui até lá, bati palmas e chamei, veio Seu Antonio que, gentilmente, nos levou para a vila de Torrões.

Saímos de Torrões e pedalamos por asfalto até Almofala. A cidade tem uma bela igrejinha da Conceição. Paramos para comprar água em uma mercearia e perguntamos onde a gente poderia almoçar. O rapaz disse que lá mesmo, pois na parte de trás da mercearia, que dava em outra rua, eles tinham um restaurante. Os pratos eram PF, a comida era caseira, bem feita e temperada, e tudo estava perfeito, inclusive as cervejas geladinhas. Teve até sobremesa de doce de coco, delícia, e tudo bem baratinho.

Depois do almoço, um sol para cada um, calor de rachar, pedalamos ronceiramente até Itarema. Se o dia não tivesse sido tão pesado, a gente pensava passar de Itarema, mas o melhor foi ficar logo ali. Procuramos uma pousadinha, tinha até piscina, lavamos as bicicletas, limpamos os alforjes, tomamos banho de piscina.

O dia foi bem difícil, mas muito divertido e diferente. Eu até disse à Baga que faria de novo o trajeto pelo mangue e pela areia fofa. Muito diferente de tudo o que fizemos até aqui. Esse foi, também, o dia em que as bicicletas mais sofreram.

21º dia: Lagoinha – Icaraí de Amontada (CE) (77 km)

Um dia surpreendente, divertido e um pouco difícil. Café da manhã e abastecido com três litros de água, partimos da praia de Lagoinha. A maré estava secando e já dava para pedalar pela areia. A hora da maré mais seca seria às 12:45, o que nos dava bastante tempo de pedal pela praia. As areias iniciais eram duras e pedaláveis. O forte vento a favor também nos ajudava.

Chegamos ao Rio Trairi, havia a possibilidade de cruzá-lo carregando bicicletas e alforjes separadamente, mas vimos a balsa pouco mais acima e fomos até lá. Não havia ninguém para manejar a balsa e fazer a travessia. Percebemos que a balsa era de um tipo que corria ao longo de uma corda de nylon que atravessava o rio. Entrei na água, pelo joelho, e fui buscar a balsa que estava no meio da travessia. O mecanismo é simples, a pessoa puxa a corda que passa por duas roldanas e a balsa se movimenta. Levei a balsa até a margem, Bagaceira subiu para segurar a balsa, pois a correnteza do rio a movimentava, coloquei as bicicletas em cima, e nós dois puxamos a corda para levar a balsa para a outra margem. Se a gente não usasse luvas, teria sido ainda mais difícil, pois a balsa era bem pesada. Baga inventou que aquela era uma balsa self-service.

Terminamos a travessia e descemos as bicicletas, quando chegou na margem do rio em que estávamos um carro carregado de equipamentos de kitesurf no teto. O pessoal cumprimentou e vimos que estava escrito na lateral do carro “Fugindo do Frio Kitesurf”. O carro fez a travessia e nós seguimos. Veio outro carro da mesma maneira e com a mesma frase na lateral. O pessoal parou para nos fotografar e perguntar detalhes da viagem. Eles eram do Rio Grande do Sul e estavam fugindo do frio viajando pelo Ceará e praticando o kite.

Passamos pelas praias de Guajiru, Flecheiras, Emboaca, todas com bares, pousadinhas e turistas, e chegamos à Mundaú. No trajeto, o vento fortíssimo nos empurrava e, junto com a gente, rios de areia branquinha seguiam na direção do vento. Tiramos várias fotos tentando captar o efeito disso, mas só se percebe vendo acontecer. A areia é soprada fortemente e viaja pelas praias.

Chegamos à foz do Rio Mundaú, muito largo e profundo mesmo na maré baixa, e vimos que a balsa ficava mais acima, subindo o rio. Entramos pelas ruas da cidade até encontrar o caminho para a balsa. Passamos por um grupo de éolicas na estrada de barro e descemos para a margem do rio.

O rapaz da balsa nos disse que o Mundaú tem um curso de 173 km e que os barcos de turismo sobem o rio até os manguezais, cerca de 4 km acima. Do outro lado, ainda margem de rio, areia muita mole, não dava para pedalar, empurramos um trecho. de volta ao mar, areia dura e voltamos a pedalar com facilidade.

Chegamos cedo na praia da Baleia, na hora da maré mais baixa, 12:45. A Baleia é uma localidade bem simples, algumas pousadas e poucos atrativos, não seria agradável passar a noite ali. Decidimos comer qualquer coisa para enganar o bucho e seguir. Paramos na barraca Chico do Caranguejo, cujo dono se chama Chico, e ele copiou exatamente a marca do famoso Chico do Caranguejo da praia do Futuro em Fortaleza. Comemos bolinhos de peixe e tomamos duas cervejas e seguimos.

O vento até parecia mais forte, dava para ficar sem pedalar por longos trechos, só o vento levando, e a areia era dura o bastante. Foram cerca de 20 km assim nessa belezura. Passamos pelas praias de Apiques, Caetano de Cima e Caetano de Baixo. Então chegamos a um trecho difícil, uns três km de pedras e areia fofa. Não havia o que fazer, apenas empurrar. Depois de muito penar, acabaram as pedras e a praia ficou boa para o pedal novamente.

Assim chegamos à praia de Icaraí de Amontada, bem mais bonita, desenvolvida e agradável que a Baleia. No início mesmo da vila, havia uma bela pousadinha de beira de praia. Acertamos o preço e o quarto, limpamos os alforjes que estavam cobertos de areia, lavamos as bicicletas e sapatos, guardamos tudo e fomos almoçar de verdade. No restaurante da pousada, a responsável pela comida é Dona Ivone. Ela preparou um delicioso peixe ao molho de maracujá para nós. Passeamos um pouco pela praia, descansamos e, à noite, voltamos ao restaurante para provar novamente da boa comida de Dona Ivone.

Este foi um dia bem especial, pois é difícil conseguir fazer um trajeto tão longo, 77 km, totalmente pela areia da praia.

20º dia: Taíba – Lagoinha (CE) (51 km)

Acordamos cedo, café da manhã na Pousada Villa da Praia, lubrificação das bicicletas, últimos preparativos, nos despedimos dos proprietários da Pousada, um casal simpático que nos recebeu muito bem.

A maré começava a baixar e, para dar mais tempo a ela, seguimos pelas ruas de Taíba o quanto foi possível. Descemos para a praia e já dava para pedalar ali. Pouco à frente, cruzamos um pequeno riacho, sem mesmo precisar retirar os alforjes, somente carregar as bicicletas para não molhar a tração.

Vimos pela praia grandes peças metálicas, escadas, tambores, pareciam ser de um navio. Mais adiante, encontramos os restos de um navio afundado na beira do mar, já muito destruído pela maresia.

Passamos por baixo de um píer da Petrobrás e chegamos à vila de Paracuru, que fica em uma bela enseada com enorme duna. Depois de Paracuru, há a foz do Rio Curu e lá não há balsa ou barco para travessia. Então, entramos na cidade, que é bem bonita e arrumada. Dizem que ali acontece um animado carnaval. Perguntei a um rapaz que passava de bicicleta onde poderia comprar câmaras de ar, visto que os espinhos cabeça de boi haviam inutilizado a maior parte das nossas. Ele disse que nos levaria até a loja, disparou na frente e, com nossa bagagem, até tivemos dificuldade em segui-lo. Mas vimos onde ele parou, lá na frente, e chegamos lá. Agradeci e nos despedimos dele. Compramos as câmaras e pegamos informação com o pessoal da loja sobre a travessia do Rio Curu. Eles confirmaram que não havia barco, mas que se podia arriscar, tentar encontrar algum pescador.

Preferimos fazer o contorno do rio pela estrada asfaltada. Abastecemos de água, Bagaceira se abasteceu de um creme na loja Boticário da cidade. Partimos pelo asfalto, entretanto, a cada zona urbana das localidades no percurso, o asfalto dava lugar ao que eles chamam aqui de “calçamento”. Ora, é um piso terrível, constituído de pedras solteira, aquelas que não casam umas com as outras. É um bate-bate difícil de passar. Depois dos trechos de calçamento, o asfalto delícia voltava. Antes de chegar em Poço Doce, um rapaz de bicicleta nos alcançou e pedalou a nosso lado. Estava indo almoçar em casa, conversamos um pouco e ele entrou na rua da casa dele.

Depois da localidade de Poço Doce, há uma grande passagem molhada sobre o Rio Curu. Essa região parece bastante próspera, há plantações de cocos e outras frutas e cereais, além de pequenas criações de gado. Entramos  e passamos pela cidade de Paraipaba, uma cidade exportadora de coco. Mais alguns km no sol e com subidas, e chegamos ao nosso destino, a vila de Lagoinha. A vila fica em um morro que desce de forma abrupta para o mar, lembra um pouco a situação de Baía Formosa (RN).

A maior parte das pousadas fica lá em cima do planalto, e só há acesso ao mar por uma única ladeira que desce para a praia. A gente queria ficar perto do mar e, lá embaixo, só havia um hotel. A ladeira de descida é algo com a ladeira da Sé. Para Baga não ter que descer e subir novamente, se não houvesse vaga lá, eu desci para verificar. Havia vaga e com desconto para ciclistas que vinham de Recife, então telefonei para Baga e ela desceu.

Depois de acomodados, caminhamos até a Barraca do Dudé, uma pessoa da cidade nos recomendou o almoço de lá, e citou, em especial, a Surpresa do Mar. Pedimos esse prato, que é bem servido, e se constitui de uma lagosta, um peixe inteiro e camarões, além de baião de dois.

Depois do almoço, descanso, passeio na praia e um excelente banho de mar. À noite, no jantar, um rapaz nos deu ótimas informações sobre as praias pelas quais ainda vamos passar.

19º dia: Fortaleza – Taíba (CE) (60 km)

Dia tranquilo. Procuramos sair o mais cedo possível da pousada em Fortaleza, mesmo assim pegamos tráfego intenso na saída da cidade. Melhora depois da ponte sobre o Rio Ceará. Passamos por Cumbuco, fizemos uma paradinha rápida para ver o centro da cidade. Ali conhecemos Juca, um cicloviajante que veio de Santa Catarina. Paramos na Lagoa do Cauípe, famosa pelo kitesurf, uma olhadinha, e seguimos para o Porto de Pecém. Passamos pelo porto e entramos na cidadezinha de Pecém. Abastecemos de água e descemos para a praia. O último trecho do dia, feito pela praia, é de 10 km, mas se for pelo asfalto são vinte.

Neste trecho de praia tivemos o vento a favor mais forte de todo o percurso até agora. Havia momentos em que não se precisava pedalar, a bicicleta seguia empurrada pela força do vento. A areia aqui é toda pedalável, chegamos rapidamente  à Taíba. No centro da vila, a praia é completamente tomada por pedras. Subimos para o calçamento para escapar das pedras, e fomos procurando pousada na praia seguinte, sem pedras. Há muitas pousadas , por causa do kitesurf, também. Depois de hospedados na Villa da Praia, almoçamos, descansamos, banho de mar.

À noite, jantamos em um curioso restaurante, chamado A Volta ao Mundo, no qual o casal de proprietários distribuiu na decoração as peças, fotos, lembranças de suas viagens pelo mundo.

18º dia: descanso em Fortaleza (CE)

Tiramos o dia para descansar e passear. Acordar mais tarde, sem preocupação com a hora da maré e com a hora do café da manhã. Passeamos a pé pelas praias de Iracema e Meirelles, mas estas são praias poluídas, o esgoto da cidade é jogado ali, um verdadeiro crime. Fomos, então, para a praia do Futuro. Encontramos um bar mais tranquilo, sem muitos turistas, tomamos banho de mar, almoçamos e voltamos para o hotel.De todo modo, percebemos que estamos bem acostumados com as praias quase desertas e as cidades pequenas por onde passamos. Fortaleza e seu enxame de turistas foi desagradável para nós.

Amanhã, partimos em direção ao litoral oeste. Iremos até onde der, pois as férias de Baga acabam no final do mês, e teremos, ainda, que organizar a volta para Recife. Provavelmente, não vai dar para chegar até Jericoacara, vai ficar para uma próxima viagem.

Até Fortaleza, pedalamos 974 km. Penso que ainda faremos mais 200 km e encerraremos a cicloviagem.

17º dia: Morro Branco – Fortaleza (CE) (85 km)

Um dia difícil, mas muito recompensador.

Saímos cedo de Morro Branco, a maré estava secando, mas a praia não era boa de pedalar, areia que agarrava o pneu da bicicleta. Subimos da praia e seguimos por estradão de barro com costela de vaca até a foz do Rio Choró. A balsa, bem simplesinha, estava do outro lado, mas veio nos buscar, guiada pelo jovem Iago. Atravessamos, cruzamos uma infinita zona de areia fofíssima, e chegamos à praia, ali na cidade de Barra Nova. Esta praia era bem pedalável mas, alguns km adiante, uma zona de pedras muito extensa.

Empurramos até o final da pedreira e pudemos pedalar novamente. Chegamos à foz do Rio Mal Cozinhado. Estava rasinho, a maré subia mas dava para atravessar a pé, com água no joelho. Retiramos os alforjes e cruzamos o rio. Do outro lado, a praia de Águas Belas e a cidade de Caponga. Dali em diante, a maré não permitia mais seguir pela praia. Esse trecho faz diminuir o percurso do dia em 15 km, mas há uma grande perda de tempo. Em compensação, há a beleza das praias e das duas travessias.

A partir da Caponga, seguimos por rodovia asfaltada e tranquila, com algumas subidinhas e descidinhas, chamamos esse trecho de toboguinho, um tobogã pequeno. Passamos pelo Frigorífico O Cornim, que foi devidamente fotografado. Chegamos à cidade de Pindoretama, passamos por um restaurante self-service de aspecto agradável, e paramos para almoçar.

Continuamos pela rodovia duplicada CE-40, com bom acostamento, até que entramos para a cidade de Aquiraz, pois daí se pode ir para Fortaleza por estradas próximas ao mar. Depois de Aquiraz, essa estrada asfaltada é, também, um sobe e desce constante. Há acostamento estreito, mas depois da entrada do tal Beach Park, há trechos sem acostamento, muito incômodo passar ali.

Depois desse trecho, a estrada melhora e começa uma ciclovia no canteiro central. Antes de entrar na ciclovia, paramos em uma loja de conveniência para algumas cervejas e picolés. Seguimos pela ciclovia até a entrada de Sabiaguaba, à direita. Passamos por uma enorme duna e cruzamos a ponte sobre o Rio Cocó. Ali entramos, de verdade, em Fortaleza. Seguimos pela ciclovia da Praia do Futuro, que está coberta de areia da praia, em alguns trechos. Passamos pelo porto e chegamos à praia de Iracema, onde nos hospedamos em uma pousada.

À noite, comemoramos os 974 km pedalados no excelente Restaurante Coco Bambu, na beira-mar da cidade.

16º dia: Canoa Quebrada – Morro Branco (CE) (90 km)

Viajar longas distâncias de bicicleta é um processo que envolve paciência, meditação, resistência. Além disso, há muitos condicionantes e variáveis envolvidos, as rotas possíveis, a hora da maré, a hora da fome, lugar para dormir. Hoje, por exemplo, foi um dia cheio de tudo isso que citei.

Antes do café na Pousada Lua Morena, em Canoa Quebrada, troquei a câmara da bicicleta de Baga, que havia furado na chegada à Canoa. O motivo foi, novamente, um espinho cabeça de boi. Durante o café da manhã, conhecemos uma holandesa, ela veio conversar com a gente, perguntar sobre a viagem, admirada com o nosso trajeto até agora. Depois do café, arrumamos toda a bagagem, os quatro alforjes e fomos sainda da pousada. A amiga holandesa veio até a entrada para fazer uma fotografia nossa. Desejou boa viagem e partimos, subindo a Broadway, a rua principal de Canoa. A cidade estava ainda dormindo, vazia, cansada da badalação noturna, fizemos fotos na rua vazia.

Depois de Canoa Quebrada há dois rios grandes para atravessar e não há barcos para a travessia. O Rio Jaguaribe e o Rio Pirangi condicionam a viagem para quem sai de Canoa, mesmo com maré baixa não dá para ir pela praia. Portanto, pegamos a rodovia e seguimos em direção à Aracati e à ponte sobre o Rio Jaguaribe, depois da cidade. Isso significa um grande contorno. Muitos quilômetros adiante, antes da ponte sobre o Rio Pirangi, novo pneu furado de Baga e, novamente, um espinho cabeça de boi. Trocamos a câmara em uma das raras sombras da rodovia.

Depois do Rio Pirangi, a gente decidiu descer até a praia de Parajuru. A gente sabia que a hora da maré mais baixa já havia passado, mas descemos para ver se ainda dava para aproveitar algo e fugir da rodovia. Em Parajuru, dava para pedalar pela areia, pois a praia ali é larga e batida. Seguimos até a praia de Canto Verde sem muita dificuldade. Entretanto, nessa praia a maré já estava ficando alta demais. Canto Verde é um lugarejo muito pobrezinho, uma praia bonita, mas sem nenhuma infraestrutura. Havia dois ou três bares pouco simpáticos, mas estavam cheios, a gente estava com fome, fui até um deles, o melhorzinho, perguntei se tinha peixe frito, o rapaz disse que o peixe havia acabado, eles não estavam esperando muita gente naquele dia.

Maré alta, sem comida, decidimos seguir pela estrada asfaltada que liga Canto Verde à rodovia principal. Nesse percurso, Baga comeu duas bananinhas que ela ainda tinha guardadas. Na rodovia principal, CE-40, seguimos sem encontrar restaurante ou loja de conveniência. Enfim encontramos uma banca de frutas na beira da estrada, paramos e comemos uma melancia quase toda, deixamos só um pedacinho. Conversamos com o rapaz da banca sobre a viagem, o calor, os cajus, as abelhas. Compramos castanhas e ele nos deu água mineral geladinha, pois a nossa estava acabando.

Seguimos pela rodovia, que tem acostamento, mas não é a melhor opção, pois muito barulhenta, evidentemente. Mais adiante, paramos em uma loja de conveniência, fizemos um lanchinho bobo, castanhas, biscoitos, refrigerantes.

Enfim, saímos da CE-40 e entramos em estradas mais tranquilas no município de Beberibe. É lá que fica a bela praia de Morro Branco, nosso destino do dia. Chegamos na pousada, trocamos de roupa, já dei um mergulho na piscina, e saímos para conhecer o Monumento Natural Falésias de Beberibe, mais conhecido como Labirinto das Falésias. É que em Morro Branco, as falésias foram extremamente desgastadas por vento e água, e entre elas criaram-se verdadeiros labirintos, quase como diversos canyons, só vendo para saber como é.

Passeamos e fotografamos por cima das falésias, mas, claro, com medo da altura das falésias, e sem chegar muito na borda, vai que é o dia de cair mais um pedacinho de falésia.

Por fim, descemos no labirinto e desembocamos na praia, voltamos para a praia central de Morro Branco e, finalmente, comemos uma deliciosa moqueca de arraia, com cervejas geladinhas e caipiroscas.

O dia foi bastante puxado, pois não há praias com infraestrutura adequada entre Canoa e Morro Branco, então o jeito foi comer os 90 quilômetros de uma vez só.